Especialistas explicam quando o medicamento é indicado, por que ele não deve ser tomado sem diagnóstico e o que se sabe sobre dependência e uso prolongado
Comprar pelo WhatsApp, se identificar com um vídeo nas redes sociais e sair da consulta pedindo o diagnóstico que “já sabia ter” antes mesmo de ser avaliado. Cada vez mais pessoas chegam ao metilfenidato, princípio ativo da Ritalina, por esses caminhos, sem nunca ter passado por uma avaliação médica completa. Esse fenômeno tem reforçado a ideia de que o Brasil vive um uso indiscriminado do medicamento.
Dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que as vendas de metilfenidato somadas às de outro estimulante usado no transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), a lisdexanfetamina, chegaram a 2,85 milhões de caixas em 2019 — o que representa uma alta de quase 21% em relação ao ano anterior.
Esse crescimento, porém, esconde uma contradição que intriga quem acompanha o tema de perto. Ao mesmo tempo em que o consumo aumenta, o Brasil ainda trata uma fração pequena das pessoas que de fato têm o transtorno.
“A estimativa de prevalência é em torno de 5% de crianças e adolescentes, e pelo menos dois terços dessas pessoas, talvez metade delas, têm indicação de medicação, de tratamento continuado”, explica Guilherme Vanoni Polanczyk, psiquiatra e professor associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Um estudo do grupo dele em São Paulo e Porto Alegre, publicado há alguns anos, mostrou que cerca d 80% dos jovens com diagnóstico de TDAH não recebiam nenhum tratamento.
Um crescimento real, mas nem por isso igual para todos
Para Rafaela Teixeira Zorzanelli, psicóloga, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de medicalização e uso de psicofármacos, esse crescimento tem uma explicação histórica. O metilfenidato existe desde o início dos anos 1960, mas só ganhou força com a entrada oficial do TDAH nos manuais de diagnóstico psiquiátrico, em 1980, e sobretudo a expansão do diagnóstico para adultos a partir de 2013.
A isso, segundo ela, soma-se uma cultura de autocobrança por produtividade que torna cada vez mais difícil recusar o medicamento como atalho químico, não porque ele resolva de fato, mas porque a pressão social por desempenho deixa pouco espaço para dizer não. É uma lógica que ela descreve de forma crítica: “Em nome de quê você não vai pegar um atalho para conseguir resultados se todas as pessoas ao seu lado estão usando esse atalho químico?”
O acesso correto, porém, está longe de ser igual. Ela observa, por exemplo, que crianças de escolas particulares chegam com muito mais facilidade ao diagnóstico e ao medicamento do que as da rede pública, em parte porque o metilfenidato não integra a cesta básica de medicamentos do SUS e só é distribuído gratuitamente em alguns municípios, geralmente mediante laudo ou, em casos extremos, judicialização.
Polanczyk confirma o mesmo padrão pelo lado clínico. O metilfenidato não é considerado medicamento essencial pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o que reforça essa desigualdade de acesso.
O diagnóstico não pode vir de um questionário online
Os especialistas são enfáticos no alerta sobre o diagnóstico feito por conta própria. Segundo Polanczyk, a avaliação de TDAH exige um processo clínico detalhado, com histórico de desenvolvimento contado pelos pais, análise de diferentes áreas (emocional, comportamental, motora, de linguagem, social) e, principalmente, a exclusão de outras causas para os sintomas.
Ele dá um exemplo: uma criança ansiosa por causa de um conflito familiar, dormindo mal e com dificuldades na escola, pode preencher um questionário de sintomas de desatenção sem ter TDAH — nesse caso, o quadro pode ser inteiramente explicado pela ansiedade.
“Esse questionário e as narrativas que têm na internet são muito perigosas, porque uma narrativa de desatenção pode solidificar a ideia de que realmente eu tenho um transtorno de atenção, e não é só alguma dificuldade transitória que todo mundo tem”, afirma.
Zorzanelli chama esse movimento de “autopsicodiagnóstico”. “As pessoas veem as coisas, se identificam, grudam naquilo, e às vezes vão no médico para pedir por aquele diagnóstico que elas já sabem que têm.” Ela relata ainda ter ouvido de outras pessoas em pesquisa que compram o medicamento informalmente, “pelo WhatsApp de alguém no meio da rua”, diz, prática que elimina qualquer avaliação sobre se a pessoa realmente precisa do remédio, ou se ele pode até ser perigoso para ela.
Dependência: um risco mais complexo do que parece
Um dos medos mais comuns sobre a Ritalina é o de que ela vicie. A resposta científica, segundo Polanczyk, tem mais nuances do que um simples sim ou não. O próprio TDAH não tratado já está associado a um risco maior de abuso de substâncias ao longo da vida.
“Muitos estudos mostram que o uso dos estimulantes diminui esse risco, alguns mostram que não tem efeito nem para aumentar nem para diminuir, e nenhum estudo mostra que o tratamento aumenta o risco de abuso de substâncias”, explica.
Ele cita um levantamento com registros de saúde da Suécia, um dos maiores já feitos sobre o tema, que chegou à mesma conclusão: pessoas tratadas com estimulantes para TDAH não apresentaram risco maior de abuso de substâncias. Ao contrário, tiveram taxas mais baixas do que quem tinha TDAH e não foi tratado. “É muito raro ter pessoas que são dependentes puramente do metilfenidato”, resume o psiquiatra.
Isso não significa risco zero fora do contexto terapêutico. Sem uma avaliação médica prévia, o metilfenidato pode desestabilizar quadros como transtorno bipolar e ser usado por pessoas com problemas cardíacos ainda não avaliados. Há ainda casos de pessoas que atribuem ao TDAH um mau desempenho que, na verdade, é efeito de privação de sono, e acabam recorrendo ao estimulante por um diagnóstico equivocado.
Sobre o uso prolongado em quem tem indicação correta, Polanczyk é direto. “A gente tem bons estudos mostrando que não tem prejuízo sobre o desenvolvimento do cérebro de crianças e adolescentes.”
Os efeitos adversos conhecidos a longo prazo são outros, e nomeados, que são risco de desaceleração do crescimento e de hipertensão.
Ritalina não deixa ninguém “ligado”
Um mal-entendido recorrente é imaginar que o remédio funciona como uma espécie de droga estimulante recreativa, quase uma versão medicamentosa da cafeína turbinada. Mas não é bem assim.
Segundo Polanczyk, o efeito esperado é a melhora da capacidade de iniciar e manter a atenção em uma tarefa, não euforia. “Se há uma euforia com o uso de estimulantes, isso é um efeito adverso que a gente precisa entender porque está acontecendo, e pode ser algo sério”, alerta.
Em pessoas sem TDAH, o próprio psiquiatra observa que o efeito percebido costuma ser maior do que o ganho real: os estimulantes aumentam a motivação e o engajamento com a tarefa, mas nem sempre melhoram o desempenho de fato. E alguns estudos apontam até uma perda de flexibilidade cognitiva, com a pessoa ficando “presa” a uma única atividade.
Zorzanelli reforça o alerta e esclarece que, mesmo para quem tem indicação correta, o tratamento eficaz de TDAH costuma incluir também estratégias não farmacológicas, como psicoterapia, adaptações escolares e familiares, atividade física, e não apenas o medicamento isoladamente.
O que fazer diante da suspeita
A orientação prática de Polanczyk para quem desconfia ter TDAH, ou já usa o medicamento por conta própria, é buscar fontes confiáveis de informação e, se a suspeita persistir, procurar um profissional treinado para “uma avaliação ampla, psiquiátrica, ou sobre o desenvolvimento, para entender se é TDAH ou não.”
Não se trata de um teste isolado, nem a identificação com um vídeo das redes sociais. É esse processo, mais lento e cuidadoso do que parece, que separa quem realmente precisa do medicamento de quem está, sem saber, colocando a própria saúde em risco.
Fonte: Coluna Dráuzio Varella