Especialistas explicam como a exposição à luz solar afeta o funcionamento cerebral, quais transtornos podem se beneficiar e o que a ciência já comprova
O Sol está a quase 150 milhões de quilômetros da Terra. Para ter uma ideia da distância, isso equivale a uma viagem de carro de cerca de 171 anos — a 100 km/h e sem parar para dormir. Mesmo tão distante, esse astro é essencial para a vida: fornece energia para as plantas fazerem fotossíntese, ajuda a manter a temperatura do planeta, movimenta o clima e por aí vai.
O que muita gente talvez não saiba é que ele também é peça-chave para a saúde mental.
“Isso acontece porque existem células fotossensíveis, principalmente na retina, que fica na parte de trás dos olhos e funciona como um sensor de luz. Ao captar diferentes comprimentos de onda, elas ativam vias cerebrais que ajudam a regular o nosso relógio biológico, conhecido como ritmo circadiano”, explica Yuri Macedo, neurologista do Hospital Badim, no Rio de Janeiro (RJ), e membro da Sociedade Brasileira de Neurologia e da Peripheral Nerve Society.
O ritmo circadiano é um ciclo de aproximadamente 24 horas que coordena diversos processos do organismo, como o sono, o estado de vigília, o apetite, a temperatura corporal, a disposição e parte das funções cognitivas. Quando ele fica desregulado, a pessoa pode dormir mal, sentir fadiga e apresentar alterações de humor. E isso é um prato cheio para afetar a saúde mental.
Como a luz “conversa” com o cérebro
Para que esse relógio biológico funcione corretamente, alguns hormônios (mensageiros químicos produzidos pelas glândulas do sistema endócrino) e neurotransmissores (mensageiros químicos usados pelos neurônios para se comunicar) precisam atuar de forma coordenada. A luz solar é um dos principais sinais que sincronizam esse sistema.
Entre as substâncias influenciadas pela exposição à luz estão os neurotransmissores serotonina e dopamina, envolvidos na regulação do humor, da motivação e do estado de alerta, além da melatonina, hormônio responsável por sinalizar ao organismo que é hora de dormir.
A serotonina, por exemplo, é precursora da melatonina, ou seja, participa da sua produção, segundo Macedo. Tanto ela quanto a dopamina têm sua atividade modulada pela exposição à luz, o que ajuda a explicar por que a luminosidade influencia o humor, o estado de alerta e a disposição ao longo do dia.
Já a melatonina apresenta uma relação inversa com a luz: durante o dia, a claridade inibe sua produção; à noite, com a escuridão, sua síntese aumenta, preparando o organismo para o sono. Por esse motivo, a melatonina também pode ser utilizada terapeuticamente, sob orientação médica, para auxiliar em alguns distúrbios do sono.
O que os estudos já demonstraram sobre a luz solar
Já sabemos que a luz afeta hormônios, neurotransmissores e os sistemas do corpo, mas será que há evidências de que uma rotina com maior exposição solar pode realmente auxiliar no tratamento de alguns transtornos mentais? Sim, mas não para todas as condições, esclarece Marcos Ferreira, psiquiatra do Hospital Samaritano Barra, também no Rio de Janeiro.
“As evidências são mais consistentes nos transtornos do humor, especialmente na depressão com padrão sazonal e em alguns pacientes com transtorno bipolar. Essas pessoas podem apresentar maior sensibilidade a alterações do sono, do ritmo circadiano e da duração dos dias”, afirma Ferreira.
A depressão com padrão sazonal citada pelo especialista ocorre em épocas específicas do ano, normalmente no inverno e no outono, enquanto a sem padrão sazonal pode surgir em qualquer período.
Um estudo publicado em 2023 na revista Nature Mental Health, com dados de mais de 86 mil adultos do Reino Unido, revelou que maior exposição à luminosidade durante o dia esteve associada a menor ocorrência de depressão, sintomas psicóticos — que podem ocorrer, por exemplo, em alguns pacientes com transtorno bipolar — e comportamentos de autoagressão. A exposição foi medida por sensores usados no pulso dos participantes.
Outros transtornos, como a ansiedade e a esquizofrenia, também podem estar associados a alterações do sono e do ritmo circadiano, o que pode agravar sintomas como irritabilidade, ansiedade, dificuldades cognitivas e prejuízo no funcionamento diário. No entanto, segundo o médico, ainda não há evidências suficientes para afirmar que a falta de luz natural esteja diretamente relacionada ao desenvolvimento dessas condições.
Onde entra a vitamina D nessa história?
A exposição ao sol também é fundamental para a produção de vitamina D, nutriente que desempenha diversas funções no organismo. Entre elas, estão a modulação da inflamação e da neuroinflamação, a influência sobre a microbiota intestinal, a participação na síntese de neurotransmissores e um possível efeito protetor sobre o cérebro.
“A gente sabe, por exemplo, que países com baixa incidência de luz solar e pessoas com níveis reduzidos de vitamina D apresentam maior risco de esclerose múltipla. Essa associação também tem sido observada em outras doenças, como demência, depressão e Alzheimer”, destaca Macedo.
Luz solar e tratamento: o que dizem as evidências
A exposição ao sol deve ser vista como uma estratégia complementar de promoção da saúde, e não como substituta dos tratamentos convencionais para transtornos mentais.
Segundo Ferreira, as principais evidências vêm da fototerapia, uma técnica que utiliza lâmpadas especiais que emitem luz intensa de forma controlada para mimetizar os efeitos do sol.
Uma meta-análise publicada em 2024 na revista JAMA Psychiatry, que reuniu 11 ensaios clínicos com 858 participantes, concluiu que a fototerapia pode ser um complemento eficaz para o tratamento convencional da depressão não sazonal — ou seja, com antidepressivos e psicoterapia.
As taxas de remissão foram de 40,7% entre os pacientes que receberam fototerapia, contra 23,5% nos grupos de controle. Já as taxas de resposta ao tratamento foram de 60,4% e 38,6%, respectivamente.
“Apesar de promissores, esses resultados não significam que toda pessoa com depressão precise de fototerapia. A indicação depende do diagnóstico, da gravidade dos sintomas, do padrão de sono, das comorbidades e do tratamento já utilizado”, pontua o psiquiatra.
Como garantir a exposição à luz solar em dias nublados
No inverno, os dias ficam mais curtos e, em muitas regiões do Brasil — especialmente no Sul —, é comum haver períodos prolongados de céu encoberto. Nessa época do ano, muita gente também passa mais tempo em ambientes fechados. Como garantir, então, uma exposição adequada à luz natural?
De acordo com Ferreira, mesmo em dias nublados a iluminação ao ar livre costuma ser muito mais intensa do que a encontrada dentro de casa. Por isso, vale fazer pequenas caminhadas durante o dia, abrir as cortinas logo pela manhã, trabalhar próximo a janelas sempre que possível e evitar passar todo o período diurno em ambientes escuros.
Para o especialista, também é importante manter horários regulares para acordar e dormir, evitar grandes diferenças de rotina entre dias úteis e fins de semana, preservar o contato social, reduzir a exposição a luzes intensas e telas próximas ao horário de dormir e praticar atividade física.
“A atividade física tem benefícios bem estabelecidos no tratamento da depressão, independentemente do ambiente em que é praticada. Fazer uma caminhada ao ar livre durante o dia acrescenta a esse benefício a exposição à luz natural”, conclui.
Fonte: Portal Dráuzio Varella