Canja de galinha, mel para tosse, gelo em pancadas: a Dra. Nauana Camilla de Souza separou o que realmente funciona do que ficou só na crença
Tem coisa que a vovó fala que a gente sabe que é verdade antes mesmo de procurar no Google. E tem coisa que parece funcionar, mas esconde um risco que a gente não imagina.
A pediatra especialista em suplementação pediátrica funcional integrativa e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, Nauana Camilla de Souza, mergulhou nas dicas de geração em geração e separou o que a ciência confirma do que pede um pouco mais de cuidado.
Canja de galinha na gripe: vovó acertou em cheio
A canja não é só conforto. É ciência.
“A carne de frango cozida libera um aminoácido chamado cisteína, que tem uma estrutura química muito parecida com medicamentos mucolíticos de farmácia. Ela age quebrando as proteínas do muco espesso, facilitando a expectoração e a limpeza das vias aéreas”, explica Nauana.
E tem mais: o caldo quente repõe líquidos e eletrólitos perdidos pela febre e a coriza, enquanto o vapor estimula os cílios das vias respiratórias a se moverem mais rápido, expulsando as secreções com mais facilidade. Então, sim, a canja de vó tem respaldo científico real.
Mel para tosse: funciona, mas só depois de 1 ano
Esse é um dos pontos em que a sabedoria popular acerta, mas com um limite muito importante.
“A Organização Mundial da Saúde e as principais sociedades de pediatria respaldam o mel como excelente tratamento caseiro para aliviar a tosse de resfriados. Sua textura viscosa reveste a garganta irritada e acalma o reflexo da tosse”, diz a médica.
A dose recomendada por estudos clínicos é de 2,5 a 5 mililitros, o equivalente a meia colher de chá a uma colher cheia, preferencialmente de 30 minutos a uma hora antes de dormir. E um detalhe importante: escove os dentes da criança depois, antes de ela dormir.
Mas atenção: o mel é terminantemente proibido para bebês menores de 1 ano. “O mel pode carregar esporos de uma bactéria chamada Clostridium botulinum. O intestino imaturo do bebê não consegue combater esse invasor, e os esporos podem liberar uma neurotoxina que bloqueia os estímulos nervosos para os músculos, causando fraqueza severa e, nos casos mais graves, paralisia dos músculos respiratórios”, alerta Nauana. Após o primeiro ano, o sistema digestivo já amadureceu o suficiente e o mel passa a ser seguro.
Gelo em pancadas: certo, mas com cuidado
Quando a criança se trombada, o instinto de pegar gelo é certeiro.
“O gelo promove vasoconstrição imediata, reduzindo o sangramento interno sob a pele, limitando o tamanho do hematoma e diminuindo a inflamação. Além disso, age como anestésico natural que alivia a dor rapidamente”, explica a pediatra.
O cuidado está na forma de aplicar: nunca coloque gelo diretamente na pele da criança, pois pode causar queimaduras térmicas. Sempre envolva em uma fralda de pano, toalha ou use bolsa térmica revestida. O tempo ideal é de 15 a 20 minutos, repetido a cada duas ou três horas nas primeiras 24 a 48 horas após o acidente.
Criança cresce dormindo: verdade
Essa é uma das dicas mais certeiras que a vó já deu.
“A maior parte do hormônio do crescimento é secretada pela glândula hipófise durante o sono profundo. Cerca de 30 a 45 minutos após a criança pegar no sono, ocorrem picos maciços de liberação do GH na corrente sanguínea, que se repetem em ciclos ao longo da noite”, explica Nauana.
Se a criança dorme pouco, acorda frequentemente ou vai para a cama muito tarde, o corpo perde essas janelas cruciais de liberação hormonal, o que pode prejudicar o potencial de crescimento a longo prazo. Rotina de sono é, literalmente, coisa de saúde.
Segurar o banho do recém-nascido: a ciência deu razão às avós
Muitas avós sempre disseram para não dar banho imediato no recém-nascido. A ciência hoje confirma.
“O principal motivo é a preservação do vérnix caseoso, aquela substância esbranquiçada que recobre a pele do bebê ao nascer. Longe de ser sujeira, o vérnix hidrata a pele, mantém o pH ácido ideal, protege contra infecções e serve como barreira térmica natural. Quando o banho é dado imediatamente, removemos essa proteção e expomos o recém-nascido ao risco de hipotermia e hipoglicemia”, explica Nauana.
Bacia com água no quarto para umidificar: funciona
Essa prática simples, que muitas avós adotavam sem saber o porquê, tem explicação científica.
“Em dias com baixa umidade, as vias aéreas da criança ressecam, prejudicando os cílios nasais responsáveis por filtrar impurezas e facilitando crises de asma, bronquite e acúmulo de secreções. A água da bacia evapora lentamente, elevando a umidade local a níveis mais confortáveis e mantendo a mucosa nasal hidratada e o muco mais fluido”, diz a médica.
É um recurso simples, gratuito e eficaz, especialmente em regiões com clima seco ou durante o inverno.
Chá de camomila: funciona, mas não para bebês
O efeito calmante da camomila existe de verdade. A planta contém apigenina, um flavonoide que se liga a receptores cerebrais promovendo efeito sedativo leve e relaxando a musculatura do trato gastrointestinal, o que alivia cólicas.
Mas, há um limite claro: “A OMS e a Sociedade Brasileira de Pediatria são categóricas: chás de qualquer tipo são proibidos para bebês menores de 6 meses. Até essa idade, o bebê deve receber aleitamento materno exclusivo”, diz a médica.
O motivo é simples e importante: o estômago do bebê é pequeno. Se for preenchido com chá, que não tem valor nutricional, o bebê mama menos leite materno e isso pode levar à desnutrição, ao ganho de peso insuficiente e até ao desmame precoce. Os rins imaturos também não filtram o excesso de líquidos com eficiência.
A partir dos 6 meses, com o início da introdução alimentar, o chá de camomila pode ser oferecido esporadicamente, em pequenas quantidades de 30 a 50 ml, morno e sem açúcar ou mel.
A sabedoria popular que passou de avó para mãe, de mãe para filha, não nasceu do acaso. Muito do que as avós sempre souberam tem explicação científica real e comprovando essas práticas, também nos lembra que o cuidado com afeto e com informação andam juntos.
O segredo está em saber o que funciona, como usar corretamente e quando buscar orientação médica. Afinal, a vovó tinha razão — quase sempre.
Fonte: Revista Crescer