Estimulação cerebral profunda beneficiou 50% dos pacientes com depressão resistente, com 35% alcançando remissão completa dos sintomas
A depressão maior — ou transtorno depressivo maior (TDM) — é uma doença mental grave, que afeta mais de 300 milhões de pessoas no mundo inteiro, e se caracteriza por tristeza profunda e persistente e/ou perda de prazer nas atividades do dia a dia.
Embora os antidepressivos e as terapias cognitivas ajudem muitos pacientes, os tratamentos convencionais para a doença não funcionam para todos. Segundo a literatura científica estabelecida, a resistência às terapias atinge entre 30% e 50% dos casos, deixando milhões de pessoas sem opções eficazes para aliviar seus sintomas.
Aprovada em 1997 para distúrbios do movimento como tremor essencial e Parkinson, a técnica de estimulação cerebral profunda (ECP) passou a ser estudada para condições psiquiátricas. Após sucesso em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), pesquisadores têm explorado seu uso para depressão.
Agora, em um estudo recente publicado na Nature Communications, pesquisadores do Hospital Ruijin de Xangai (China) testaram a ECP em 26 pacientes com depressão resistente. A técnica utiliza eletrodos finos implantados cirurgicamente no cérebro que emitem pulsos elétricos para modular a atividade cerebral anormal.
Para participar do estudo aberto — em que tanto os pesquisadores quanto os pacientes sabiam que a ECP estava sendo administrada —, a depressão foi considerada resistente quando pelo menos três tipos diferentes de tratamento não funcionaram: antidepressivos, psicoterapia ou eletroconvulsoterapia.
Descobrindo biomarcadores cerebrais que preveem respostas ao tratamento
Para testar o uso da estimulação cerebral profunda, a equipe a direcionou para duas regiões cerebrais: o núcleo do leito da estria terminal (BNST), envolvido na regulação de estresse, ansiedade e medo prolongado; e o núcleo accumbens, crucial para o processamento de recompensas, motivação e prazer.
Pesquisando padrões cerebrais prévios ao tratamento que indicassem quem teria melhora, os autores gravaram sinais elétricos diretamente do cérebro logo após a cirurgia, e continuaram as medições no período pós-operatório e durante os meses de acompanhamento com estimulação ativa ou desligada.
Após um ano de tratamento, os resultados revelaram uma resposta clínica considerável: cerca de metade dos pacientes respondeu ao estímulo e 35% entraram em remissão. Os ganhos envolveram melhoras em sintomas depressivos, ansiosos, qualidade de vida e funcionalidade.
A metodologia registrou a atividade elétrica do cérebro diretamente do BNST — região profunda ligada à ansiedade e ao estresse — com oscilações entre 4 e 8 Hertz na frequência teta. Valores mais baixos dessa oscilação se correlacionaram com melhores níveis de humor diários nos pacientes.
A medição prévia da atividade elétrica no BNST revelou que os pacientes com menos atividade teta nessa estrutura cerebral antes da cirurgia responderam melhor ao tratamento. Isso significa que a atividade teta funciona como um biomarcador que ajuda a prever quem responderá melhor à terapia.
Perspectivas e potencial terapêutico das descobertas
Em um comunicado, a pesquisadora-líder Valerie Voon, da Universidade de Cambridge, afirmou que, além de ser um potencial tratamento, a ECP “nos forneceu um marcador objetivo, possível e muito necessário, para indicar quais pacientes responderão melhor ao tratamento”.
Essa transição da psiquiatria, de uma abordagem baseada apenas em sintomas para uma medicina de precisão biologicamente fundamentada, representa uma mensagem real de esperança para os milhões de pessoas que vivem com depressão resistente ao tratamento.
Nesse contexto futuro, podemos imaginar um cenário no qual pacientes com depressão grave passam por avaliações multimodais — como EEG, ressonância magnética, testes neuropsicológicos — para orientar tratamentos personalizados e mais adequados ao seu perfil.
A ideia é desenvolver sistemas de “circuito fechado” capazes de monitorar o cérebro em tempo real e ajustar automaticamente a estimulação conforme as mudanças no humor ou na ansiedade do paciente. Isso seria como um marcapasso cardíaco para regular continuamente o estado emocional das pessoas.
Ao mirar uma nova opção terapêutica para alguns dos pacientes mais vulneráveis, a pesquisa acabou também iluminando os mecanismos neurais fundamentais da depressão. Os achados abrem caminhos para inovações terapêuticas para pessoas com diferentes estágios da doença — de moderados até os mais resistentes.
Fonte: CNN