A perda auditiva está associada ao aumento do risco de demência.
Com o passar dos anos, perdemos capacidade auditiva. Esse é um fenômeno natural, que atinge, em maior ou menor grau, todas as pessoas que envelhecem. É por isso que pessoas mais velhas precisam aumentar o volume da televisão ou pedir para as pessoas falarem mais alto ou para repetirem o que disseram.
“Dois terços das pessoas com mais de 70 anos têm algum grau de perda auditiva. Aos 85 anos, essa proporção sobe para quatro quintos”, disse Graziela de Souza Queiroz Martins, doutora em otorrinolaringologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em entrevista ao Portal.
No entanto, a perda da audição não atrapalha apenas a autonomia e a comunicação dos idosos, ela está associada a outro problema comum ao envelhecimento: as demências.
Associação entre perda de audição e demência
Pesquisas mostram que pessoas com perda auditiva têm risco mais elevado de desenvolver demência. Segundo estudos, até 8% dos casos de demência são atribuídos à perda de audição.
De acordo com o relatório da comissão do periódico Lancet, a perda de audição com o envelhecimento é um dos maiores fatores de risco modificáveis para demência.
Uma perda leve da capacidade auditiva dobra o risco de demência, enquanto uma perda severa aumenta o risco em até cinco vezes.
Mas por que isso ocorre?
Alterações no cérebro
No cérebro há uma região chamada córtex auditivo, responsável pela percepção e processamento dos sons. Localizada na parte superior dos lobos temporais, essa área passa a receber menos estímulos com a perda da audição, diminuindo de tamanho.
A falta de estímulos sonoros compromete outras áreas cerebrais, que, com o tempo, também se atrofiam. Além disso, na busca por compreender as informações que não foram entendidas graças à perda de audição, o cérebro precisa gastar mais energia, deixando menos recursos disponíveis para as outras funções. Desse modo, o órgão se torna menos eficiente.
Isolamento social
A dificuldade para compreender as conversas e o medo de incomodar as outras pessoas fazem com que o idoso evite interações sociais e se isole.
Assim, a perda de audição leva ao isolamento social. Sem os estímulos cognitivos oriundos das interações sociais, o idoso perde habilidades cognitivas e se torna mais propenso a desenvolver demência.
“A surdez isola. Diferentemente do que ocorre com quem não enxerga, as pessoas ao redor perdem a paciência com quem não escuta bem”, afirmou Martins.
Portanto, o isolamento social pode aumentar em até 50% o risco de desenvolver demência.
Perda de audição e aparelhos auditivos
O uso de aparelhos auditivos, entre outras medidas que evitem o isolamento de pessoas mais velhas com diminuição da audição, tem um grande impacto na prevenção das demências
O primeiro obstáculo é a aceitação. Existe um estigma associado ao aparelho auditivo que leva muitas pessoas a pensarem que o seu uso é um “atestado de velhice”. Por isso, resistem ao máximo o início do tratamento.
“O segundo ponto seria a adaptação. Quando a adaptação não é muito boa, o aparelho se torna desconfortável no início. Se nos primeiros meses o equipamento não está tão bem ajustado, a pessoa já pensa que não presta e abandona o uso”, acrescentou Michelle Oliveira, médica otorrinolaringologista pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), também em entrevista ao Portal.
Pelo SUS, é possível conseguir o equipamento gratuitamente. O paciente deve ir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e realizar os exames e encaminhamentos orientados pelo médico. Confirmada a necessidade do aparelho auditivo, ele entrará em uma fila de espera pelo seu recebimento, a qual poderá acompanhar online. Atualmente, existem 241 serviços habilitados em reabilitação auditiva espalhados pelo país, como os Centros Especializados em Reabilitação e os Centros de Reabilitação Auditiva na Média e Alta Complexidade.
Como proteger a audição e o cérebro
De acordo com material publicado pela Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, algumas orientações podem ajudar a a proteger tanto a audição quanto o cérebro:
- use protetores de ouvido quando estiver em locais com sons muito altos, como shows;
- não ignore a diminuição da audição, e procure um médico se notar que não está escutando bem ou notar sinais como zumbido e ouvido tampado;
- use aparelhos auditivos, se forem recomendados.
Fonte: Portal Dráuzio Varella